Sobre a discussão da escala 6x1
Em “Vidas Lixadas: crime e castigo nas narrativas de travestis e transexuais”, Guilherme Gomes, o autor da obra, traz muitos conceitos e pensamentos do campo do serviço social para pensar seu objeto de estudo.
Eu quero trazer alguns dos conceitos que ele aborda no livro para pensar essa discussão em torno da escala 6x1.
Comecemos pela noção de “pobreza”. No livro, o autor defende que pobreza é um fenômeno complexo e multidimensional.
Isso significa dizer que, para além da insuficiência de renda, que seria o primeiro ou principal fator que muitos utilizariam para definir pobreza, ela também possui um nível de espiritualidade e de acesso a desejos e sonhos das pessoas, “expressando as vidas daqueles sujeitos que possuem pouco poder de decisão, de criação e de direção do curso de suas próprias histórias, o que faz com que seus projetos de vida sejam calcados com base nos interesses da classe dominante”.
O autor vai dizer que a pobreza não é apenas uma categoria econômica, expressada na carência de bens materiais, mas que também é uma categoria política que se traduz pela carência de direitos, de possibilidades e de esperança.
Como muitas pessoas já pontuaram, a escala 6x1 é exaustiva e tira da pessoa a possibilidade de coisas como bem-estar, qualidade de vida e produz, também, o processo de alienação. Afinal de contas, o trabalhador está tão cansado que sequer tem tempo de refletir sobre a sua própria realidade e condições materiais, sociais e culturais.
Eu trabalhei sob a escala 6x1 durante 3 meses nas Olimpíadas de 2016. Eu não tinha vida na época, mas eu vivi isso por apenas 3 meses, já que meu regime de contrato era temporário. A minha mãe, auxiliar de serviços gerais, está nessa há mais de 20 anos.
Ao tratar sobre essas questões que envolvem as noções de pobreza, alienação, subalternidade, o autor alerta: a subalternização não é estática, tampouco natural. Ela é fruto de uma realidade histórica que subjuga e tutela as classes que passam pela processo de subalternidade.
Abordar os grupos subalternizados a partir de uma perspectiva única de dominação seria o mesmo que negar a capacidade de agenciamento, articulação e organização política desses grupos.
Tanto se organizam e agenciam suas próprias pautas que esse movimento pelo fim da escala 6x1 foi proposto por uma pessoa que veio da classe trabalhadora e entende os impactos que esse regime de trabalho tem na vida do trabalhador.
Já diria Maria Carmelita Yazbek:
“A experiência trágica de pertencer às classes subalternizados significa construir trajetórias ligadas à exploração, pobreza, alienação e resistência”.
A resistência, nesse caso, está diretamente ligada à mobilização pelo fim da escala 6x1
E não para por aí: dá para trazer também o recorte da divisão sexual do trabalho para a discussão, mas pela limitação de carácteres fica pra uma próxima.
📸 @desenhosdonando